Por não receberem propina, PMs teriam rebocado carro de vigilante
Depois de ter vindo à tona a denúncia de que dois PMs receberam propina para encobrir os responsáveis pelo atropelamento do filho da atriz Cissa Guimarães, na Gávea, dois novos casos aconteceram no último fim de semana em diferentes pontos do Rio.
No sábado, um vigilante disse que teve o carro rebocado em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, por não querer pagar o suborno exigido por policiais militares para liberar o veículo, cujo IPVA está atrasado. No mesmo dia, um outro motorista denunciou que fora agredido na noite de sexta-feira, em Vaz Lobo, por também ter se recusado a dar a propina pedida por dois PMs.
O caso do vigilante, que não quer ser identificado, aconteceu quando ele seguia com a mãe, de 80 anos, para a casa de uma irmã, em Duque de Caxias, pela Rodovia Presidente Dutra. Ele contou na delegacia que os PMs, depois de calcularem quanto o motorista gastaria com despesas de reboque e com as diárias do depósito, exigiram um propina de R$ 320 para fazer vista grossa.
— Como eu estava muito nervoso, o próprio policial me ajudou a fazer a conta. O valor sugerido era de R$ 320.
Expliquei que estava sem dinheiro, e eles apreenderam o veículo, sem me dar qualquer documentação que confirmasse o fato — alegou a vítima.
A mãe do motorista, que tem problemas de audição e locomoção, passou mal e foi socorrida com a ajuda de um outro policial, que a levou até o Posto de Assistência Médica (PAM) de São João de Meriti. Revoltado, o vigilante, depois que a mãe foi liberada pelos médicos, seguiu de táxi até a 64aDP (São João de Meriti), onde prestou queixa, por volta das 22h40m.
Na delegacia, segundo a vítima, um inspetor chegou a tentar demovêla da ideia e lhe perguntou se não tinha medo do que poderia acontecer.
O vigilante, no entanto, não quis voltar atrás.
— Ele (o policial) me pediu para pensar duas vezes, porque estava mexendo numa casa de vespa. Eu sei o risco que estou correndo, mas estou indignado e não posso deixar passar — afirmou.
Segundo o registro policial, o tenente e o cabo são acusados de corrupção passiva. Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Polícia Militar informou que o comando da 21oBPM já está apurando o caso.
Ao conversar com a equipe do GLOBO, o vigilante recordou um outro episódio, no qual, segundo ele, foi agredido por policiais militares.
— Em 2006, eu estava andando perto de casa e fui abordado por policiais militares, que estavam dentro de uma viatura. Eles me pediram para encostar num muro e levantar as mãos. Antes que eu me dirigisse para o muro, fui empurrado e levei um soco na boca do estômago — lembrou.
As recentes denúncias de abusos por parte de policiais trazem de volta a discussão sobre o problema da corrupção sistêmica na corporação. Para João Trajano, professor de Ciência Política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do Laboratório de Análise da Violência na mesma instituição, é difícil estabelecer uma relação de causa e efeito entre a repercussão do caso envolvendo o filho da atriz Cissa Guimarães e o aparecimento de novos casos de pessoas denunciando policiais. De acordo com Trajano, a própria população também contribui para a formação de uma cultura da corrupção.
— Por um lado, dentro da polícia, só há repressão aos policiais de baixa patente, embora não seja uma prática restrita a quem está na ponta do sistema. Contudo, há também, na cultura brasileira, um hábito de tentar se livrar da lei. A corrupção policial existe e é muito grande, mas reflete algo que está além da própria instituição. Isso não justifica o que acontece, embora explique a sua magnitude — afirmou o especialista.
Já o antropólogo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Roberto Kant de Lima enxerga o problema a partir de uma perspectiva diferente. De acordo com o especialista, as pessoas só denunciam o abuso da polícia em duas situações: caso tenham condições de resistir às ameaças dos agentes ou quando ocorre uma grande desgraça, em que não tenham mais nada a perder. Para Kant de Lima, o problema inicial é que o policial não se vê como um agente público, e sim como alguém que trabalha em função dos seus próprios interesses.
— A responsabilidade pela corrupção é totalmente do agente público.
A polícia, assim como o serviço público em geral, tem como principal característica a defesa de interesses pessoais e faz isso através da burocracia estatal. Na Justiça, essa marca é ainda mais forte — afirmou.